I
Casas construídas por sonhos/ não são de um amarelo-criança / aquelas casas coloridas a lápis de cor / pela mão e pelo arco-íris na íris de minha menina / ( o pacto que fiz com Deus / passava pelo arco-íris dela!) / Casas pintadas nos sonhos / são de um amarelo-profissional / muito lineares e pernósticos / amarelos-geométricos / que nem imagino o porquê de estamparem / as paredes das casas levantadas para meu sonho / poderem albergar meu ser / ( a psiquê humana é um mistério sem aletheia ) /
Sonhos não reconstroem casas / antes as fazem novinhas e velhinhas / tal qual as velhinhas na cor-de-pele amarela / que desbotam o tempo / na mixórdia de suas tintas e matéria / que não obedecem as leis da física / nem da química nem tampouco da biologia / pois o sonho é senhor do tempo / e pinta e borda em Juan Miró / (A ciência e a filosofia são tentativas de consertar a vida quebrada / mas a arte ou a boneca quebrada da menina / - a fim de que seus olhos não se molhem, ó leda criança!!!).
Uma casa fora dos sonhos/ usa o olhar do artista / em sua matéria e estrutura / e ou está assentada no olhar / ou se espraia pela aldeia russa de Marc Chagall / ou se aninha num poema / abraçada a uma árvore ou arbusto apaixonado / que a consola na intempérie / viúva solitária em companhia de Deus / na companhia de Jesus / Santa Terezinha do Menino Jesus!!!/ ( Toda a obra de Chagall são tecidos da indústria do sonho).
As casas construídas pelos pedreiros dos sonhos/ têm alguma coisa de todas as casas/ em que moramos e onde deixamos fiapos de lembranças/ doce algodão-doce cor-de-rosa/
que remetem à infância / tempo que uma criança só / bastava para fazer os adultos felizes / escondendo como piratas / tesouros em baús velhos de tempos alegres e mágicos / mapas de tesouros criptografados na poesia de Mário Quintana / (Oh! algodão-doce que eu ouvia de longe / gritado pelo vendedor / nas manhãs que coradas de beleza / ocultaram-se para sempre / nas paredes daquela casa! / onde a dor bateu à porta e entrou sem pedir licença poética) / ( Jamelão cantaria para eu ouvir : / "Oh, Deus como sou infeliz..." / e na voz do artista eu não ouviria a palavra Deus / mas somente um suspiro lancinante substituindo a palavra "Deus" / pois ouvi tal qual a criança / que escuta antes seu ser / traduzida na voz do mundo lá fora / janela aberta à chuva de criaturas voadoras /insetos-anjos com asas / anunciando uma nova Casa de Davi / nas térmitas voadoras) / tudo sem consolo de vodka /
Oh! como sou infeliz!!!! /
II
Estava eu num sonho/ esta noite passada / numa dessas casas sem alvenaria ou argamassa / toda feita de nuançes cerebrais / debaixo do véu dos cílios / noite que casa sono e sonho / sonho que tentei recolher nos pedaços esparsos pelo travesseiro / entre o rosicler da alva e o arroio do rocio / trescalando na terra da aldeia /
Olhei pelo vão da varanda/ e vi um amigo chegando/ (ele morava na casa dos fundos / também feita de massa sonhada / estava de bicicleta) / Peguei-o olhando para mim / antes que eu o visse / e cumprimentasse : "Oi, Jura!"/ Ele estava bêbado/ e cambaleou lá nos fundos do quintal cimentado/ para onde foi/ em busca do abrigo do lar / Mas isso não vi no sonho / Vi-o apenas cambaleante / quase caindo sobre a bicicleta /
Dentro de minha casa/ que tinha uma cor ao amarelo / minha filha me pediu para brincar com ela / e eu disse: "vou birncar com minha a mais pequenina" / pois a que pedira primeiro / era minha filha maior e mais morena / que a outra que me apareceu / logo depois mais clara e menor / também solicitando que brincássemos /
No sonho a minha única filha / era duas em dois tempos/ como se a menina de onze anos/ que vi por último/ e a de nove ou oito anos/ filha de outros tempos /que de fato jogava bola comigo / na área coberta de uma casa perdida em outro tempo /
O sonho é algo assim inefável / como um abraço de olhos fechados / na filha amada / ou na mulher que o amor torna a mais bela / e ainda faz deabrochar a flor de enigma / que é o ser puro / puramente arquitetado dentro do ser humano : minha filha existe / o que significa que está fora do meu pensamento/ da minha imaginação e memória / e como tudo o que existe / está fora de mim / está no mundo / e é captada pelos meus sentidos /
Todavia dentro do meu sonho / ela é um ser puro / algo feito de pensamento e imaginação / e do que informam os sentidos / para abrigá-la dentro do meu sonho / dentro do meu ser / O existente está em presença / quando o objeto é captado pelos sentidos / Já o ser prescinde dos sentidos / porque é atemporal / e por isso emerge dentro dos sonhos / e pode estribar a leitura do profeta bíblico / mesmo estando o ente existente / distantes cefeidas do verde no olhar / do azul ou castanho / ou do negro noctâmbulo / que matiza e equaciona olhar e luz / do lado de baixo da Constelação do Cão Maior / que não deixa arrefecer a costela de Adão /
No meu sonho de uma noite álgida / naufragada as estrelas / perdida a lua num terreno baldio / dentro do meu sonho que exprime meu ser / o ser de minha filha é presença eterna / mesmo que nunca mais passe o sol / Dentro do meu sonho ela dorme /e acorda e ri e brinca e canta!!!! /
domingo, 4 de janeiro de 2009
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